Não… não é assim tão frágil

Fiquei incrédula a olhar o pequeno ser ao meu lado, rosada de gorro na cabeça, com as mãozitas enrugadas agarradas uma à outra, de unhas compridas e finas. De vez em quando parecia fazer um esforço sobre-humano para entreabrir os olhos, como se as pálpebras rasgadas pesassem uma tonelada, e emitia uns ruídos à laia de gemido, ou de porta com falta de óleo nas dobradiças.

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Eu, temerosa perante tamanha façanha, atingida por um raio, submersa em dúvidas e hesitações, procurando perscrutar cada sinal do seu rosto, cada imperceptível movimento ou expressão da bebé, mirava-a estática.

Ali estava sem nada temer, pelo menos assim ajuizei, como se pode temer o que não se conhece? Pode, na verdade, pode, todavia, no caso dela diria que não existia ainda a construção do desconhecido, justamente porque do lado de dentro do meu corpo, tal como do lado de fora estava eu, garantindo a satisfação de qualquer necessidade, assegurando conforto.

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Todos a olhavam com o sorriso da ternura que os seres minúsculos inspiram nas pessoas, comentando parecenças, revivendo memórias dos outros que também já foram assim, pequenos «são tão desprotegidos… coitadinhos.» – Desprotegidos?! Talvez, mas essa seria a minha tarefa de aí em diante: protegê-la. Tive dúvidas acerca da sua fragilidade, pois se toda a estrutura e dependência a tornavam frágil, eu sentia-me debilitada e quebradiça, como se aquele pequeno ser ameaçasse a minha existência.

Nas suas mãos, lograsse o quadro com a visão inversa, estava eu… nas suas pequenas mãos. Os pilares inabalaveis da minha existência eram agora feitos de papel, fustigados pela ventania. A ela pesavam-lhe as pálpebras, a mim pesava-me o resto da minha vida. Receava não a satisfazer, ou “satisfazê-la em demasia”. Cedo aprendem um conceito distorcido de justiça, reclamando cuidados e bens que vamos  amontoando para eles, juntamente com beijos e abraços.

Proteger até sufocar e deixar, ainda assim, que ela me faça sentir a pior das mães, clamando – porventura – por essa justiça que “lhe convém”, insatisfeita pelo resto a que crê ter direito.  De sorriso em sorriso e voz melosa, pedir-me-á o palco, para que seja protagonista dessa novela que eu – suponho que assim será – criarei, por tanto a querer amar.

Mas quero amá-la sem a quebrar, todavia  não estou certa de como o fazer, porque agora ainda não quebra, ao contrário do que os outros vêem, mas mais tarde poderá ficar irremediavelmente desarranjada. Não lhe poderei fazer Reset, nem tão pouco a mim. Caber-me-á então essa tarefa pesada de a presentear em cada dia com o que lhe baste, temperando-a de amor, carinho, compreensão e liberdade, ouvindo-a, suspensa no arame, para afiançar que ela também me ouvirá, suportando o que lhe pesar e limpando feridas, deixando porém algum carrego e uma ou outra cicatriz, para que saiba que a dor está lá e nos leva a exultar por dias melhores e a nunca desistir. Saberei ensiná-la a desistir? Terei a sabedoria de lhe mostrar a bissetriz da desistência?

Agora só tem presente, como eu, mas a malvada da minha cabeça antecipa o futuro e não me traz certezas. Da interação resultará um novo eu que ainda desconheço, e a sua resposta ao mundo, pese embora eu saiba que todas as outras variáveis desconstruirão este meu plano que nem o chega a ser.

Ela ali, tão frágil, tão bela, encostada ao meu peito, ao meu corpo dormente da aventura de sofrer, expulsar e acolher. Mostrar desvelo, tranquilidade, paixão e essa qualidade que dizem ser inerente à espécie feminina, a incondicionalidade do amor de mãe… não me surge naturalmente, pelo que me desculpo com a canseira do parto, das horas infinitas de dor.

Aos pais quase tudo é permitido; ouço analogias a outras espécies de seres, segundo as quais o comportamento do género resulta de respostas diferentes das da progenitora. Todos à minha volta têm respostas para tudo, estão certos de que bastará engordar a pequena e depois tudo virá com o tempo, naturalmente. Emitem opiniões e dão-me conselhos que não ouço, como se o filme fosse mudo e só percepcionasse a sua agitação, férteis em panaceias que crêem profícuas.

Então sei que me mentiram, mas pior, mentiram a si próprios, pois quiseram para si o que lhes disseram, não questionaram ao criar os seus. Uns saíram-se bem, outros nem por isso. Estes últimos, pequenos ditadores, à imagem dos progenitores quiseram para a geração seguinte o que não tinham tido.

Ferve-me no peito a humildade de te receber, num turbilhão de expectativas e imprecisão.

Entra uma enfermeira, cheia de si, e ordena-me que te dê suplemento «não pode ficar sem comer, esta fase é crucial…»; depois, não sei, talvez duas horas mais tarde entra outra e ordena-me «Ponha-a ao peito. Agora vai custar um pouco, mas tem que a ajudar», e puxa a minha mama como se fosse um recipiente externo ao meu corpo, tentando enfiá-la na tua boca, enquanto tu procuras alimento, como se soubesses desde sempre o que fazer.

O sol a iluminar o quarto dá-me novo alento. Desatam a chamar-me “mãe”, assim como se fosse um posto, e percebo a antecâmara da perda de identidade. Já não sou só Maria: Eu, Maria, filha de alguém, mulher de alguém. Agora sou “mãe”! Sou mãe de alguém, mas para estas cuidadoras sou apenas uma “mãe”, e esta mãe tem que ir aprender como se dá banho ao pequeno ser, como se cuida da corda que a prendia às minhas entranhas. Todas metódicas no seu discurso, revirando a minha minúscula filha  para lhe pôr o chambre, o cueiro de cambraia enfeitado com fitas de seda rosa, elogiando a elegância das vestes.

E assim fiquei, como diz o Sérgio Godinho, “como à espera do comboio na paragem do autocarro”.

Ainda assim, com tantas dúvidas que a responsabilidade acarreta, neste presente que me presenteia com a VIDA, só tenho um garante que vou tentar honrar, sejam quais forem as circunstâncias: Amar-te, ensinar-te, ouvir-te, observar-te e dizer, quando o tempo chegar, que sou apenas um ser humano, que ser mãe é fazer o melhor possível com os recursos que temos e que, uma vez mais: a vida te dê o que te baste, para que cada ínfimo detalhe dos teus dias seja saboreado, honrado, aprendido e celebrado, creio ser esse o caminho para a construção de um ser humano “melhor”. 

Para os meu filhos: obrigada!

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