Idoneidade (um apontamento à adopção)

Ser idóneo pressupõe a capacidade de alguém ser apto, moral ou fisicamente, tendo a capacidade para cumprir requisitos em determinado âmbito.

Ora, se falamos de conduta moral, aferir da idoneidade de forma objectiva poderá não ser tarefa fácil. Desde logo a idoneidade não se define pelas habilitações literárias, posição social ou bem estar material.

Este preâmbulo precede um caso que observei com incredulidade. Um dia, conversando com um colega, este dizia-me que ele e a mulher – face, infelizmente, à dificuldade em engravidar – consideravam a possibilidade de adoptar. Todavia, ele havia ficado muito chocado, pois ao procurar saber o que era necessário para se candidatarem ao processo de adopção, soube que deveriam ser sujeitos a um levantamento exaustivo das suas condições, o que implicaria, naturalmente, a idoneidade do casal. – “Idoneidade?!” – dizia-me ele com indignação – “questionarem a nossa idoneidade é patético… somos os dois advogados!” – Tentei fechar a boca, cosê-la, não desatar a dizer impropérios, pois surpreendeu-me o facto de um advogado ter este tipo de discurso, um argumento bacoco, como se a sua actividade profissional/habilitações académicas definissem a sua conduta moral.

E esse é o aspecto crucial. Imagino que seja muito difícil a avaliação da idoneidade das pessoas, em processos de esta ou de outra natureza. Na realidade existem pais, biológicos ou não, que, lamentavelmente, não proporcionam as melhores condições para educar uma criança.

Diria que a adopção é uma gravidez com contornos diferentes, não deixa, no entanto, de o ser, uma vez que é um período de espera, durante o qual se vão criando laços com aquele ser que vai pertencer à família, com toda a responsabilidade e entrega que implica a parentalidade.

Conheço casos de adopção de enorme sucesso, crianças felizes numa família equilibrada, apesar dos desafios acrescidos que podem, ou não, estar associados ao processo. Contudo, conheço também casos francamente maus, relativamente aos quais me interrogo acerca dos motivos que levaram os “pais” a consumar um processo deste natureza.

Num caso, em particular, observei pais que tratavam os filhos como “coisas” para cumprir – assim o creio – um qualquer objectivo que desconheço. Estar à mesa num almoço ou jantar de aniversário que denomino de “odeio-vos a todos, mas vamos lá cumprir a praxe”, e ver o casal zombar dos filhos: “universidade?” – seguido de risos jocosos – “Só se fores para a universidade dos burros!” – e assim prosseguiam, inferiorizando-os, humilhando-os, enquanto os pequenos, claramente embaraçados, enfiavam as cabeças nos tablet’s da maçã, última geração, desconfortáveis nas roupas de marca que os pais suponham atribuir-lhes distinção. Os miúdos, ora deixavam cair um sorriso amarelo, ora se procuravam abster,  acabrunhados pela constante menosprezo.

Para o exterior, que idóneos! Ela em jeito de caridosa senhora(?) da caridadezinha, enquanto ele, bom cargo numa conhecida empresa portuguesa; ambos com formação universitária.

 

Exibiram-nos e foram muito elogiados pelo seu “acto generoso e de enorme coragem”. Tentaram entrosar os pequenos com a “natinha da nata”, mas os miúdos eram apenas miúdos. Tudo o que mais precisavam, tão pouco… aqueles “pais” desprovidos de sentimentos e valores, carinho, paz, harmonia, amor, conversas francas e saudáveis … Qual quê?! “Pasme-se! Então dou-lhe um Apple, que me custa os olhos da cara, e nem faz um esforço para comer à mesa?

Tanto que haveria por dizer… Mas por favor, que não hajam equívocos: Idoneidade, valores morais, e tudo aquilo que consubstancia estas palavras, não se torna verdade na profissão, posição social e/ou financeira, estas não definem o carácter de ninguém!

laço 100px

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s