As crianças são cruéis? São sim senhora!

Sempre tive alguns pruridos em considerar que uma criança pode ser “má”. São crianças… já se sabe… – e lá nos incutiram uma série de princípios e definições para quando estes pequenos seres resolvem mostrar o seu lado mais sinistro. Sinistro porque por vezes é apenas crueldade, no âmbito da indiferença pelos sentimentos dos outros; no entanto, outras vezes é a crueldade pura e dura, no sentido do prazer que se pode(?) porventura retirar por ver alguém sofrer.

O caso da crueldade por indiferença ao sentimento do outro é relativamente comum nos miúdos. Há um tempo atrás, a propósito dos presentes que oferecemos nos aniversários dos amigos, o meu filho J. contou-me que quando era pequeno foi ao aniversário de um amigo que, quando estava a abrir o role de presentes em frente a todos os convidados, abriu o que o J. lhe tinha oferecido, um livro: Ah… um livro! – atirou-o para trás das costas e prosseguiu desembrulhando.

Achei curioso que o J., passados cerca de 20 anos sobre este acontecimento, o guardasse na memória. Para além de mal educado, o menino em causa foi cruel. E não, nem o entusiasmo de abrir um monte de presentes pode servir de desculpa para um comportamento desta natureza. Ser grato e ter respeito pelos outros deveria, no meu entender, estar/ser cultivado, nas “entranhas” das crianças; diria que é um principio básico.

Depois, há efectivamente crianças que parecem sentir prazer em infligir sofrimento aos  seus pares. Leva-me sempre a questionar se é parte integrante do mais profundo do seu ser, ou se os pais não têm a capacidade de reconhecer o adulto em potência que já existe no seu descendente.

Uma “amiga” da C. disse-lhe que se ela não fizesse o que ela queria – não sei precisar o evento, mas tratou-se de uma brincadeira em que tinham que escolher quem representava que papel – quando tivesse acesso à Internet espalharia fotografias da C. com cocós na cabeça.

A C. contou-me o sucedido com grande tristeza. Ficou magoada e percebeu, embora tenha apenas 7 anos, a intenção que a outra criança teve de a magoar. Já desvendou, há algum tempo, a crueldade por detrás das palavras e atitudes da criança em causa.

Não a proíbo de brincar ou de estar com quem quer que seja (dentro do razoável, evidentemente), procuro apenas educá-la para o respeito, companheirismo e tolerância. Creio que a própria C., com o passar dos anos – e de acordo com a minha experiência anterior – irá seleccionar as pessoas e, certamente, esta criança não fará parte do seu conjunto de amigos. Digo isto porque a C. tem uma preocupação clara em não magoar os outros; mesmo quando está aborrecida com arrufos de amigas e eu lhe atiro com uma sugestão parva de mãe galinha: diz-lhe que babado é o brinquedo que ela arrasta… – levo de imediato com uma resposta: Não mãe, eu também não gosto que me digam isso a mim.

Há crianças crueis, há crianças mal intencionadas e que, de forma deliberada e reiterada, causam sofrimento aos outros.

Os adultos que conhecemos assim, feios por dentro, justificam tantas vezes as suas amarguras com argumentos do passado. Não há desculpa, tratando-se de seres racionais, podemos sempre escolher ter atitudes de respeito por nós e pelo o outro.

Aos 7 anos pouco se fala de bulingue, mas os pequenos bullys já vivem dentro destas crianças.

Cabe aos pais reconhecer que os sentimentos que estas crianças demonstram em tão tenra idade (inveja, insatisfação, impertinência, agressividade, raiva, obstinação e irascibilidade), não são aceitáveis.

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Um comentário sobre “As crianças são cruéis? São sim senhora!

  1. Não sei se consigo concordar que as crianças são cruéis (talvez as que tenham traços psicopatas o sejam e, mesmo essas, não sei até que ponto terão consciência disso). Mas concordo, inteiramente, de que há conceitos que têm de ser trabalhados desde cedo. O que implica que sejam trabalhados por crianças… e adultos.
    De resto, o mundo é dual e precisamos ser “apertados” para crescermos em toda a nossa dimensão – refiro-me à espiritual também – o que quer dizer que, cada um de nós tem um papel a cumprir.
    Porém, precisamos de nos tornar mais capazes para escolher o Caminho do Amor sobre o caminho do medo, desde idades mais tenras (tenho andado e escrever sobre isso).
    Parabéns pelo texto, Leonor! 🙂 Uma bela questão, que origina um belo debate! ^_^

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