Tantas ilhas das flores…

Hoje revi “A Ilha das Flores” nesse belíssimo Brasil do samba, cor e brilho, «cidade maravilhosa, cheia de encantos meus…», onde a Estética Kantiana reforça o paradigma da exclusão na Ilha do paradoxo, onde os humanos, lado a lado com porcos, se alimentam do lixo que estes animais rejeitam.

Ontem, e antes de ontem, e muito antes desses dias, vi tantas outras “ilhas”, que porventura foram extensões de continentes que deslaçaram os istmos para justificar a distância dos que também têm o polegar oponente, mas que já não se confundem com seres humanos, estes ditos “humanos” abandonaram os ilhéus, escorraçaram-nos cerrando os olhos e as mãos, para que as moedas não escorreguem.

Vi o africano que, incauto, passou demasiado perto da senhora na rua, enquanto esta, num gesto rápido carregado de suspeição e hostilidade se agarrava à carteira, certa de que a cor se traduzia em curriculum de meliante.

Vi o desencanto do filho que se cansou de querer ser amado e reconhecido, perdido numa viela de sentidos proibidos, deixou de querer, mas deixou de querer quase tudo: a aceitação, o reconhecimento, o carinho, a amizade, o amor. E então? Pois, é que quando deixou de querer tudo isso, no dia em que desistiu daquela figura vinculada a um laço desses que dizem que não se desatam, por serem de sangue, amortalhou-o como pôde e silenciou o querer.

Vi a mulher que deixava os filhos pequenos no casebre para apanhar o cacilheiro, ainda de noite, que a levava aos escritórios sujos dos serviçais das nuvens, da finança, advogados do diabo, políticos e juízes, decisores em prole dessa mentira que decora os escritórios que a mulher todos os dias limpa, alheia à paisagem das grandes janelas de uma qualquer torre da cidade, ou às xícaras com restos de café na grande sala, com a grande mesa. Vi essa mesma mulher ser criticada, julgada e vilipendiada porque, para alimentar os filhos que deixava no casebre em cada manhã, tinha que os abandonar aos seus próprios cuidados, delegando na mais velha, com apenas oito anos, as tarefas de regente.

Vi baterem no peito, na “minha igreja”, comungarem – porque podem! Não se divorciaram, como os conjurados adúlteros – e ao deixarem o templo, observei que os seus sorrisos se desvaneciam a par dos votos da congregação, para correrem a julgar, criticar, destilar a invejazinha do “irmão do rebanho” «Que anda bem montado num carro alemão do mês passado… Eu também trabalho! O gajo deve andar a roubar».

Vi o filho que nasceu, tão esperado, tão Amado, num dia que se queria de uma felicidade eterna, ligado às máquinas, no pequeno berço transparente de quatro paredes, pequeno demais, frágil demais. A mãe e o pai a tremer a cada alarme das máquinas que traduziam o que o pequenino não podia nem saberia expressar. Vi-o partir nas Asas de um Anjo, enquanto os pais lavavam o pequeno corpo com as lágrimas que jamais secariam; as mesmas que os levavam ao talhão dos pequenos caixões brancos, cobertos de terra, as mesmas que lhes roubaram os sonhos, a paz e a Fé, que não queriam perder, o menino estaria lá no Colo Dele? Desse Sádico que o levara?

Vi essa incredibilidade de acreditar que «é o livre arbítrio», ouvi frases feitas para o desespero de quem tem saudade, de quem tem fome, de quem não entende que soma de pecados os condena.

Ouvi as notícias, as que quiseram dar, o embuste de nos fazerem crer que os dias são macabros por esse mundo fora, que os decisores que escolhemos (?) decidem em consciência, que as «noticias de última hora» são importantes e não qualquer caso de um homenzinho do futebol que cuspiu ou insultou alguém.

Vi que, num país dito democrático, alguém que protesta na assembleia da república, clamando pela demissão de um qualquer primeiro-ministro, enfrentará um processo judicial.

Vi o enxovalho a que “se sujeitam” as pessoas que têm orientações sexuais diferentes e as suas famílias.

Vi confundirem crença, fé, cor de  pele com banditismo.

Vi negligência, displicência, soberba, panaceias fedorentas, mofo nas cabeças pequenas dos invejosos, destruição para lá do imaginável, debaixo do manto imaculado de quem esconde uma alma putrefacta.

Vi idosos sós, presos ao cansaço de acordar todos os dias para mais um dia que se esgota entre o silêncio da televisão cheia de cor, palmas, artistas e apresentadores sempre alegres.

Vi velhos que se lastimam da sua solidão tão merecida, esses que fizeram a vida dos que nunca amaram num inferno, e crêem  merecer compaixão só porque coleccionaram anos de vida, têm a pele enrugada e arrastam-se com os olhos lacrimejantes e a voz sumida.

Vi a mulher que tirava a foto com o telemóvel ao rabo de um engraxador, apressando-se a pulverizar qualquer rede social à custa de vexar na penumbra, esperando ser idolatrada com o mesmo polegar oponente que um dia diferenciou esta gentinha dos indoutos; essa mesma mulher que quando está de cócoras e de rabo empinado se acha mais digna a fazer o servicinho.

Também soube sobre pedófilos, violadores e todo o tipo de molestadores hediondos, que destroem vidas…

O raciocínio faz-nos arquitectar figuras de estilo e metáforas que nos façam crer que tudo tem um propósito escudando-nos assim de assumir qualquer ónus, ainda que este também possa ser, pura e simplesmente, inexistente. Criamos planos e aspiramos concretizar sonhos numa dimensão que não conhecemos. É um plano infinito que desenhamos a cada instante, suspensos no fio que desaba para o vazio que recusamos. Evitamo-nos, estilizamo-nos, identificamos-nos e agregamo-nos, correndo o risco de não ser gente, se assim não for.
Eu sou para além de mim, dos que mais amo, dos que temo e daqueles de quem  não gosto e não entendo. Então descubro que para amar tenho que entender, e não sei amar o que não entendo. Quero esta memória de saber, aprender e amar. Quero sofrer porque sou gente e não há possível denominador comum num amor ausente de sofrimento e o ser humano que se quer Homem nas entranhas. Que possa bradar a espada e talhar o amor matando esses demónios que aspiraram a endeusar as virtudes do dinheiro, da mentira feita rede, rede, rede. Obrigam-me a pertencer a esta rede e querem o meu rosto, os meus hábitos, os meus gostos e querem sugar-me a alma.
Não gosto desta terra que é mais cinza e preta do que o planeta azul sonhou.  Não gosto de comprar roupa que uso pouco, que me cobre dessa identidade que roubei das mãos de escravos, grandes e pequenos.

E tudo isto porque hoje revi esse documentário de flores e misérias, contrastes punjentes que me lembram o propósito do dia de hoje e de todos os dias: Amar, Aceitar, Respeitar, Cuidar, Ouvir, Aprender, ser humilde sem me humilhar.

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