O “resto da nossa Vida”

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No fim-de-semana, falava com uma querida amiga sobre a questão dicotómica: carreira/Família. Mas mais do que a expressão que reduzimos a estas duas palavras, a consciência do que temos, o que queremos, o que significa o nosso bem estar, paz, e por bem-estar e paz falo não apenas de nós, enquanto seres humanos, mas do ser humano que não se dissocia da família que gerou ou pretende gerar.

No momento em que temos filhos, a nossa identidade integra a “outra”, a dos filhos; ou se quisermos, funde-se e, por mais que persista essa consciência identitária do EU, sobrepõe-se, de um modo geral, a identidade do NÓS. Assim, já não existem decisões que dependam exclusivamente de nós, porque por mais que subsista a nossa  “última palavra”, passamos a ponderar a identidade conjunta – que é a nossa, a deles e a do conjunto a que chamamos família.

Como identidade coadjuvante, temos responsabilidades acrescidas, pois toda e qualquer decisão que tomemos afectará, positiva ou negativamente, o todo.

Contudo, a forma identitária distingue-se, como que emerge com a maturação. Estruturamos-nos com o correr dos dias, sempre que nos desconstruímos e fundimos novos alicerces. É nesta fase que, porventura, nos questionamos sobre o que queremos fazer com o resto da nossa vida.

O “resto da nossa vida” pode ser ao vinte, aos trinta, quarenta ou outra qualquer década, dependendo da intensidade e das escolhas de cada um. Já o  Sérgio Godinho dizia que “hoje é o primeiro dia do resto da minha vida”; o primeiro dia, descortinada que foi a importância da relatividade da riqueza material, o primeiro dia, assegurada do que vem em primeiro lugar da pirâmide de cada um, decidimos então viver como escolhemos, sem recriminações, sem sustentar argumentos para os que não entendem a escolha, seja ela qual for.

O que é que nos faz felizes? O que é que nos faz crescer espirutualmente? O que nos faz ser melhores seres-humanos? Melhores mães, melhores pais?

Querer voltar a estudar, querer mudar de carreira, de país, integrar um movimento ou criá-lo, viver no campo e do campo, enfim, o que for; ou, pura e simplesmente não mudar nada se assim é a nossa felicidade. Todavia, se a mudança passar por, eventualmente, perder a tão almejada distinção da “carreira”, a mesma que nos fez perder o jantar de família, as expressões inusitadas do dia a dia dos nossos filhos que expressam todo o seu ser e o seu desenvolvimento, e tudo o que é praticamente impossível de descrever, pela sua intensidade e singularidade, então eu escolheria, indubitavelmente não perder nenhum momento com “os meus”, ainda que tivesse que optar por um estilo de vida mais modesto.

Não há cotação possível para as horas, dias, meses e anos de ausência. Se fosse possível conciliar o que me parece, pelo menos no nosso Portugal, inconciliável para a maior parte das famílias, fantástico! Mas é neste Portugal que se continua, na maior parte dos casos (graças a Deus que há excepções!), a valorizar o tempo passado no local de trabalho, mesmo que este tempo não seja produtivo. Rotinas orientadas por gente poucochinho que crê viver numa realidade de distinção pelo lugar que ocupa numa empresa ou pelo carro que conduz.

Também é verdade que, na maior parte do casos, não há, infelizmente, outra opção. Há que desdobrar o dia para garantir o sustento, e não se pode fugir nem mascarar o óbvio.

O que quer que desejem fazer com “o resto das vossas vidas”, façam-no, se possível, sobretudo lutem por isso. Ah… E o que os outros acham?! É só isso, o que “eles acham”, porque somos nós que temos que viver connosco para o resto da nossa vida.

Sejam Felizes!

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Irreverência? Má educação? Eis a resposta.

No outro dia a C. estava a ter um “mau dia”. Diria que já estava com sono; a época das festas troca os horários das crianças e, quando estas não descansam o suficiente e alteram rotinas ficam, como bem sabemos, impertinentes.

A C. não queria fazer nada do que eu sugeria, pelo que a deixei fazer recortes e desenho, enquanto eu lia (ou tentava, vá…). Exasperada, pelo facto do que estava a fazer não lhe sair como gostaria, atirava com as coisas, choramingava e gritava.

O que realmente me apeteceu?! Deixá-la só com a sua birra e ir ler para outro sítio.

O que fiz? Respirei fundo (muito fundo…) 20 vezes e:

  1. Ofereci ajuda
  2. Sugeri fazer outra actividade
  3. Sugeri descansarmos um pouco

Face a respostas negativas, e uma vez que a má disposição da mini não passava, disse-lhe calmamente: «Querida, não adianta estares assim, pois ficas com 2 problemas; continuas mal disposta e não consegues trabalhar.»

Expliquei-lhe, ainda, que não era justo para mim o seu comportamento.

Acalmou-se, desenhou a sua Pipa, filhotes e uma casota que depois de recortados, resultaram num trabalho 3D que tratei de elogiar.

Não é fácil, é preciso “treino” mas, como tudo na vida, é uma questão de hábito. O resultado, a maior parte das vezes, é positivo, quer para nós, quer para eles.

Ficam algumas sugestões de… em Vez de… E um “NÃO”, é muitas vezes necessário (ainda que acompanhado da adequada explicação).

Em vez de...

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As crianças são cruéis? São sim senhora!

Sempre tive alguns pruridos em considerar que uma criança pode ser “má”. São crianças… já se sabe… – e lá nos incutiram uma série de princípios e definições para quando estes pequenos seres resolvem mostrar o seu lado mais sinistro. Sinistro porque por vezes é apenas crueldade, no âmbito da indiferença pelos sentimentos dos outros; no entanto, outras vezes é a crueldade pura e dura, no sentido do prazer que se pode(?) porventura retirar por ver alguém sofrer.

O caso da crueldade por indiferença ao sentimento do outro é relativamente comum nos miúdos. Há um tempo atrás, a propósito dos presentes que oferecemos nos aniversários dos amigos, o meu filho J. contou-me que quando era pequeno foi ao aniversário de um amigo que, quando estava a abrir o role de presentes em frente a todos os convidados, abriu o que o J. lhe tinha oferecido, um livro: Ah… um livro! – atirou-o para trás das costas e prosseguiu desembrulhando.

Achei curioso que o J., passados cerca de 20 anos sobre este acontecimento, o guardasse na memória. Para além de mal educado, o menino em causa foi cruel. E não, nem o entusiasmo de abrir um monte de presentes pode servir de desculpa para um comportamento desta natureza. Ser grato e ter respeito pelos outros deveria, no meu entender, estar/ser cultivado, nas “entranhas” das crianças; diria que é um principio básico.

Depois, há efectivamente crianças que parecem sentir prazer em infligir sofrimento aos  seus pares. Leva-me sempre a questionar se é parte integrante do mais profundo do seu ser, ou se os pais não têm a capacidade de reconhecer o adulto em potência que já existe no seu descendente.

Uma “amiga” da C. disse-lhe que se ela não fizesse o que ela queria – não sei precisar o evento, mas tratou-se de uma brincadeira em que tinham que escolher quem representava que papel – quando tivesse acesso à Internet espalharia fotografias da C. com cocós na cabeça.

A C. contou-me o sucedido com grande tristeza. Ficou magoada e percebeu, embora tenha apenas 7 anos, a intenção que a outra criança teve de a magoar. Já desvendou, há algum tempo, a crueldade por detrás das palavras e atitudes da criança em causa.

Não a proíbo de brincar ou de estar com quem quer que seja (dentro do razoável, evidentemente), procuro apenas educá-la para o respeito, companheirismo e tolerância. Creio que a própria C., com o passar dos anos – e de acordo com a minha experiência anterior – irá seleccionar as pessoas e, certamente, esta criança não fará parte do seu conjunto de amigos. Digo isto porque a C. tem uma preocupação clara em não magoar os outros; mesmo quando está aborrecida com arrufos de amigas e eu lhe atiro com uma sugestão parva de mãe galinha: diz-lhe que babado é o brinquedo que ela arrasta… – levo de imediato com uma resposta: Não mãe, eu também não gosto que me digam isso a mim.

Há crianças crueis, há crianças mal intencionadas e que, de forma deliberada e reiterada, causam sofrimento aos outros.

Os adultos que conhecemos assim, feios por dentro, justificam tantas vezes as suas amarguras com argumentos do passado. Não há desculpa, tratando-se de seres racionais, podemos sempre escolher ter atitudes de respeito por nós e pelo o outro.

Aos 7 anos pouco se fala de bulingue, mas os pequenos bullys já vivem dentro destas crianças.

Cabe aos pais reconhecer que os sentimentos que estas crianças demonstram em tão tenra idade (inveja, insatisfação, impertinência, agressividade, raiva, obstinação e irascibilidade), não são aceitáveis.

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Idoneidade (um apontamento à adopção)

Ser idóneo pressupõe a capacidade de alguém ser apto, moral ou fisicamente, tendo a capacidade para cumprir requisitos em determinado âmbito.

Ora, se falamos de conduta moral, aferir da idoneidade de forma objectiva poderá não ser tarefa fácil. Desde logo a idoneidade não se define pelas habilitações literárias, posição social ou bem estar material.

Este preâmbulo precede um caso que observei com incredulidade. Um dia, conversando com um colega, este dizia-me que ele e a mulher – face, infelizmente, à dificuldade em engravidar – consideravam a possibilidade de adoptar. Todavia, ele havia ficado muito chocado, pois ao procurar saber o que era necessário para se candidatarem ao processo de adopção, soube que deveriam ser sujeitos a um levantamento exaustivo das suas condições, o que implicaria, naturalmente, a idoneidade do casal. – “Idoneidade?!” – dizia-me ele com indignação – “questionarem a nossa idoneidade é patético… somos os dois advogados!” – Tentei fechar a boca, cosê-la, não desatar a dizer impropérios, pois surpreendeu-me o facto de um advogado ter este tipo de discurso, um argumento bacoco, como se a sua actividade profissional/habilitações académicas definissem a sua conduta moral.

E esse é o aspecto crucial. Imagino que seja muito difícil a avaliação da idoneidade das pessoas, em processos de esta ou de outra natureza. Na realidade existem pais, biológicos ou não, que, lamentavelmente, não proporcionam as melhores condições para educar uma criança.

Diria que a adopção é uma gravidez com contornos diferentes, não deixa, no entanto, de o ser, uma vez que é um período de espera, durante o qual se vão criando laços com aquele ser que vai pertencer à família, com toda a responsabilidade e entrega que implica a parentalidade.

Conheço casos de adopção de enorme sucesso, crianças felizes numa família equilibrada, apesar dos desafios acrescidos que podem, ou não, estar associados ao processo. Contudo, conheço também casos francamente maus, relativamente aos quais me interrogo acerca dos motivos que levaram os “pais” a consumar um processo deste natureza.

Num caso, em particular, observei pais que tratavam os filhos como “coisas” para cumprir – assim o creio – um qualquer objectivo que desconheço. Estar à mesa num almoço ou jantar de aniversário que denomino de “odeio-vos a todos, mas vamos lá cumprir a praxe”, e ver o casal zombar dos filhos: “universidade?” – seguido de risos jocosos – “Só se fores para a universidade dos burros!” – e assim prosseguiam, inferiorizando-os, humilhando-os, enquanto os pequenos, claramente embaraçados, enfiavam as cabeças nos tablet’s da maçã, última geração, desconfortáveis nas roupas de marca que os pais suponham atribuir-lhes distinção. Os miúdos, ora deixavam cair um sorriso amarelo, ora se procuravam abster,  acabrunhados pela constante menosprezo.

Para o exterior, que idóneos! Ela em jeito de caridosa senhora(?) da caridadezinha, enquanto ele, bom cargo numa conhecida empresa portuguesa; ambos com formação universitária.

 

Exibiram-nos e foram muito elogiados pelo seu “acto generoso e de enorme coragem”. Tentaram entrosar os pequenos com a “natinha da nata”, mas os miúdos eram apenas miúdos. Tudo o que mais precisavam, tão pouco… aqueles “pais” desprovidos de sentimentos e valores, carinho, paz, harmonia, amor, conversas francas e saudáveis … Qual quê?! “Pasme-se! Então dou-lhe um Apple, que me custa os olhos da cara, e nem faz um esforço para comer à mesa?

Tanto que haveria por dizer… Mas por favor, que não hajam equívocos: Idoneidade, valores morais, e tudo aquilo que consubstancia estas palavras, não se torna verdade na profissão, posição social e/ou financeira, estas não definem o carácter de ninguém!

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Matrioskas Family em Doce Desordem: 5 Premissas para uma vida que se quer feliz!

matrioska-858008_640Somos uma família de “matrioskas” e “matrioskos”, com respeito pela identidade de cada um, independentemente do seu “tamanho” nesta nossa “colecção”.
É uma Doce Desordem porque eu sou a desordem em pessoa: quero fazer tudo, sou compulsiva e muito desastrada, assim, nem sempre “tudo” é TUDO! Continuo a partir louça e a cortar dedos, a puxar o tapete da cozinha sem reparar que a C. Já lá estava em cima (sim… aterrou de rabo na pedra); mas também já aprendi que não se põem bóias previamente cheias e molhadas – a T. viveu a minha fase mais “experimental” e na luta de enfiar à força a braçadeira levou um murro na boca… jorrava sangue e ela, com pouco mais do que 2 anos gritava: “foi a mãe.”- Se fosse hoje?! Ah pois, alguém teria tentado intervir para cuidar de avaliar o murro certeiro. Também já não tento pôr miúdos em cadeiras giratórias de escritório (o felizardo do meu sobrinho mais velho teve essa magnifica experiência).

Histórias verdadeiras, mas brincadeiras à parte, desde a T., com 27, passando pelo J., 25, pela C., 7 anos, e pela mini mais mini: I. (com apenas 16 meses) chegou uma aprendizagem, e continua a chegar todos os dias: com a idade, com os miúdos e com o L., com quem partilho a vida há 14 anos. Aprendi sobretudo 5 premissas valiosas, que não dispenso:
1 – Respeito pela diferença
2 – Aceitação (bom ou mau… o primeiro passo é aceitar)
3 – Humildade (todos, do mais pequenino ao mais velho, sem excepção, têm algo a ensinar;     só temos que estar atentos)
4 – Ouvir, ouvir, ouvir! E depois, quiçá, falar.
5 – Determinação em pôr sonhos em prática: Um sonho sem um plano, é apenas um sonho.laço 100px